José Eron Nunes
Amanheceu um dia aparentemente normal como qualquer outro. Matusalém levantou, tomou uma ducha, vestiu-se e foi até a padaria. Não havia ninguém lá. Os pães estavam todos duros e mofados. Apanhou um pacote de bolachas, um pote de margarina, deixou as moedas sobre o balcão e retornou para preparar o café. Escovou os dentes apressado, porque tinha que trabalhar. Saiu voando! Detestava perder o horário, mas chegou dezessete minutos atrasado.
Abriu a loja, deu uma espiada para a rua vazia, andou mais uns passos até a calçada para levantar uma motocicleta caída logo em frente, e voltou para organizar umas mercadorias que estavam sobre o balcão. Pensou que se o dono da loja estivesse presente, pediria para sair mais cedo. Precisava ir ao mercado comprar uns mantimentos que estavam faltando. Matusalém conferiu o caixa três vezes, organizou as mercadorias nas prateleiras, tirou o pó, e ninguém apareceu a manhã inteira.
Fechou ao meio dia em ponto. Foi para casa, aqueceu a comida que sobrara do jantar do dia anterior, e almoçou. Lavou a louça: um garfo, uma faca, um copo e um prato. Escovou os dentes, e saiu novamente. Olhou para o ponto de ônibus, mas resolveu ir andando, afinal, a temperatura estava amena, agradável para caminhar, e o ônibus não viria mesmo. Enquando caminhava, observava as casas fechadas e os carros abandonados nas calçadas, já cobertos pela poeira do desuso. Alguns, com os pneus murchos. Eram treze horas quando reabriu a loja para o expediente da tarde. Como havia organizado tudo pela manhã, apenas conferiu o caixa da tarde, e apanhou um jornal de três meses para ler. Como seria bom se chegasse alguém, pensou, mesmo que não comprasse nada.
Saiu da loja às 17h17minutos para compensar o atraso da manhã. Não havia sol e o céu estava cor de chumbo. Embora não tivesse carro, adorou a ideia de uma possível chuva para lavar todos aqueles carros empoeirados na rua, mas ficou preocupado com a possibilidade de alguém ter partido às pressas e esquecido roupas no varal.
Entrou no supermercado e andou calmamente pelos corredores, apanhando o que precisava. No final do corredor de higiene pessoal, havia um banner de uma mulher loira, em tamanho natural, apontando para a prateleira dos desodorantes, destacando uma oferta de dois por um. Embora não fosse da marca que costumava usar, resolveu apanhar dois, porque a mulher lhe pareceu simpática e confiável. Ficou um pouco ao lado dela na esperança de estabelecer uma conversa amistosa, mas ela nada falou e ele era tímido demais para tomar a iniciativa. Receou parecer idiota. Ele mesmo apanhou uma calculadora no caixa, somou tudo, abriu a gaveta, colocou uma nota de cem, apanhou o seu troco, e foi embora.
No caminho para casa, parou com o pé sobre uma bola de futebol quase murcha, esperando que os garotos aparecessem para buscá-la. Olhou para um lado, para outro, esperou dez minutos com duas sacolas de compras na mão, mas não veio menino nenhum. Ajeitou a bola próximo de um poste para ficar bem visível, e foi embora. Começava a anoitecer.
Antes de entrar em casa, foi até o jardim do vizinho apertar uma torneira que estava pingando, desperdiçando água. Olhou para a grama alta e pensou que se no domingo fizesse tempo bom apararia a grama do seu jardim, e já cortaria a do vizinho também.
Entrou em casa, tomou uma ducha, colocou um pijama, preparou um macarrão instantâneo com salsichas, jantou, lavou a louça, e deitou no sofá da sala. A TV não sintonizava nenhum canal porque a antena repetidora havia caído com um vento forte e não havia ninguém para consertar. O rádio estava sem pilhas, esquecera de comprar novas no supermercado. Resolveu ir para a cama dormir. Antes de pegar no sono, ficou imaginando onde estaria agora se tivesse dito sim quando o último morador a abandonar a pequena cidade o convidou para ir junto, mas sabia que este era um pensamento estéril. Apagou a luz e fechou os olhos para dormir logo pois amanhã a mesma rotina o esperava, e ainda faltavam quatro dias para o domingo.