Você

Stela Rates

Tenho medo de você, esse olhar trespassado que me acompanha enquanto desço do táxi. Tenho medo de você, quando se aproxima de mim.
- Tia, ô tia, preciso levar um lero contigo.
Não sou sua tia.
Aproximo a bolsa do corpo, abaixo os olhos e aligeiro o passo. Abri a carteira no táxi, você viu; sabe o quanto tenho. É tarde, perigoso andar na rua, perigoso entrar na garagem de carro. Noutra noite, tive que dar a volta na quadra; você, homem feito, remexia o container do lixo, em frente ao meu portão.
- Não vou te roubar, caralho! Pode entrar e, depois, falar comigo. Quero levar um lero contigo. Pode fechar o portão, já disse!
Será que não teria sido melhor ter pego um Uber? Não precisaria abrir a carteira.
- Tia, ô tia, espera aí...
Tenho nojo de você, o cheiro de animal humano, os lábios que pendem moles, os seios de menina violada, mal escondidos sob a camiseta suja.
- Vou te contar uma história.
Não quero ouvir.
- Vim da Lupcínio, não posso voltar assim. Tô sem nenhum. Não posso voltar, minha mãe vai me bater.
Não sei se acredito, mas sinto raiva de sua mãe mesmo assim.
- Tô com fome, tia.
Não sou sua tia!
- Só quero uma moeda.
Tenho pena de você. Onde estarão minhas moedas? Nunca acho nada nesta bolsa, preciso comprar outra.
Amanhã, sem falta.
Você estará dormindo nas calçadas, sob as marquises, o cheiro ainda mais profundo, o sol invadindo a sua cara, gretando a pele de menino, entrando pela boca escancarada de velho bêbado.
E o que terá acontecido com minhas moedas?
- Crack, elas vão virar crack.
Por um momento, desprezo o porteiro. Por que ele não fica quieto? Se ele fosse você, se eu fosse você, seria outro o destino das moedas?
Não adianta falar.
Feio, acho você muito feio. Mas às vezes me surpreende a beleza – malabarista – nas esquinas, quando fecham os sinais. Círculos no ar, músculos desenhados no corpo magro e ágil. Bom de ver. Quem sabe não poderia viver disso? Mas eu tenho medo, levanto os vidros escuros do carro. E malabarismo não é trabalho.
Pronto, achei uma moeda!
Você some na noite com o seu real. Eu entro no apartamento, tranco a porta, cubro meu filho que dorme, abro uma garrafa de vinho.
E esqueço de você.

Stela Rates

 

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