Traição

Mario Ulbrich

Traição


Avistou seu carro estacionado junto ao meio fio da calçada em frente ao portão. Caminhou sob a chuva que havia iniciado no final da tarde, abriu a porta e sentou-se ao volante. Vinte e três horas e quarenta e cinco minutos, indicava o relógio do painel. Estava atrasado para voltar para casa. Com certeza levaria uma bronca de sua mulher. Ligou o carro e deu partida; ainda divisou a silhueta de Maria Antônia, na contraluz da porta da casa, lhe acenando adeus.
Depois de um breve percurso por ruas desertas, chegou à sua residência. Examinou detidamente suas roupas, verificando se estavam em ordem. Entrou no elevador, subindo ao andar do seu apartamento. Abriu a porta e já do hall de entrada enxergou Nádia, assistindo televisão, sentada no sofá da sala.
Sassá, seu velho gato de estimação saltou-lhe aos pés e roçou seu corpo da cabeça à cauda em suas pernas, como um silencioso cumprimento. Ouviu a previsível pergunta da mulher, feita em tom de censura:
- Atrasou-se mais uma vez Queirós. Novamente problemas no escritório?
- Como bem sabes mulher, as reuniões com a diretoria não têm horário para encerrar. O que fazer? Tenho que informar o andamento das questões aos sócios!
Serviu-se de uma generosa dose de whisky, ouvindo-a mais uma vez questionar, sem lhe prestar muita atenção:
- Quer que eu prepare alguma coisa para comer?
- Não, não! Vou tomar um banho e depois deitar-me; hoje estou exausto.
Nádia desconfiava das suas desculpas. Já há bastante tempo adquirira a certeza, de que algo estava errado. Todas as quartas feiras as mesmas histórias, as longas e demoradas reuniões noturnas e as chegadas tardias em casa. Enciumada procurava por qualquer indício, vasculhando os pertences de Queirós; passava em revista suas roupas, em busca de eventuais manchas de batom, odores de perfumes remanescentes, enfim, qualquer coisa que pudesse o incriminar. Todo o esforço em vão.
Queirós era gentil, mas em termos de sexo havia perdido muito de seu entusiasmo. Nádia sentia sua vida monótona e vazia. Sabia que ele zelava por sua imagem de bom marido, mas em casa não fazia jus a tal julgamento.
Quando sentiu ter alcançado o limite de sua tolerância, Nádia respondeu a um anúncio postado por uma agência de Detetives – investigações, eficiência e sigilo absoluto.
Os serviços custaram caro, mas valeram a pena. Comprovaram que Queirós mantinha encontros já há muitos meses com Maria Antônia. Diante dos fatos apurados sentiu-se enraivecida. A rival tinha sido uma de suas amigas de infância. Tomada pelo ódio, prometeu solenemente a si mesma:
- Para esta traição haverá revide.
Guardou com cuidados todo o material que lhe havia sido entregue pela agência, não sem antes separar algumas fotos com datas e indicações dos locais dos encontros. Em atitude premeditada, numa quarta-feira, serviu o desjejum e deixou sobre a mesa espalhadas as fotografias selecionadas, acompanhadas de um bilhete lembrando-o de ser a quarta-feira o dia usual da traição.
Queirós empalideceu e ficou sem ação. Recuperando-se aos poucos, considerou que a melhor atitude que poderia adotar seria a de confessar toda a história e pedir o perdão para sua mulher.
Nádia ouviu atentamente as desculpas, questionando detalhes. Lembrou que havia prometido para si mesma que haveria revide. Falou pausadamente com toda a clareza, dando ênfase a cada palavra:
- Nem o perdão e muito menos o esquecimento!
Queirós preparou-se para o pior. A relação do casal não mais se recompôs. Continuaram morando juntos, dividindo o apartamento, mantendo as aparências e o patrimônio. Mas não voltaram a formar um par.
Queirós manteve a rotina de retardar-se às quartas feiras, mas não voltou a se encontrar com Maria Antônia. Incluiu-se em diversos grupos de amigos e colegas ora para um carteado, um papo em um bar, uma partida de futebol. Mantinha a esperança de que poderia reatar a relação com Nádia. Seu maior temor era saber que ela, dado à sua natureza e valores, não era mulher disposta a viver uma vida solitária; muito menos sem sexo.
Aumentavam suas preocupações os olhares e sorrisos que Nádia recebia de um vizinho de porta. Tratava-se de um solteirão, de meia idade e boa estampa. Advogado bem-sucedido, que parecia conhecer os horários de saídas e chegadas de Nádia. Pensava de si para si, que se eles tivessem o descaramento e a coragem de dar início a uma relação íntima ele descobriria, e o fato não passaria em branco.
Quando adquiriu a certeza de que Nádia estava o traindo, Queirós preparou uma armadilha. Comentou que iria se ausentar à serviço e retornaria no dia seguinte.
Saiu com uma mala levando uma muda de roupas e apetrechos de uso pessoal. Não compareceu naquele dia ao trabalho. Quando anoiteceu dirigiu-se para o seu apartamento. Aguardou na vizinhança até reparar que as luzes das residências próximas estavam aos poucos sendo apagadas e as ruas se fazendo desertas. Consultou de forma repetida o relógio até ver chegar a hora que julgava mais adequada para agir.
Entrou pelo portão da garagem, evitando a portaria, subiu pelas escadas e alcançou a porta de entrada do apartamento. Abriu-a silenciosamente e sem provocar qualquer ruído se dirigiu ao quarto de sua mulher. Empurrou com cautela a porta entreaberta do quarto pouco iluminado; vislumbrou um punhado de roupas espalhadas sobre o tapete e copos de vinho vazios, sobre os criados mudos.
Gemidos de gozo e prazer direcionaram seu olhar para a cama. Enxergou os corpos totalmente despidos de Nádia e Maria Antônia, abraçados, entregues em ardentes desejos. Atônito, mal podendo acreditar na cena que via, sentiu sua raiva atingir o clímax ao ver seu gato de estimação acomodado, enrodilhado junto aos pés da cama, ronronando.

 

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