Amor Patético

Mario Ulbrich

Amor Patético

Sorveu o gole do amargo sentindo na mão o calor da cuia. Olhou o campo se vestindo de verde com as primeiras luzes da madrugada. O canto dos emplumados em seus ouvidos não foi suficiente para arrancá-lo, mesmo que por breves instantes, de seus pensamentos. Temia voltar a viver uma vida solitária. A faina, a lida, o trabalho exaustivo ocupando o seu dia, de sol a sol, como aperitivo para uma noite não dormida. Acocorar-se junto ao fogo que não aquece a alma nas intermináveis noites de rondas, trocar a casa acolhedora pelo frio invernal do galpão. Cambiar a refeição campeira, cheirosa e gostosa, feita a capricho pela patroa, por um naco de assado requentado acompanhado de um punhado de farinha.
É certo não haver consolo possível para o infortúnio de deixar de ter a doçura, o amor e o carinho da companheira. Mas por desgraça era exatamente este o revés que tivera. Uma irremediável perda, impossível de ser evitada.
Olhou rapidamente, já desviando o olhar, para a porta entreaberta da casa e a escuridão de seu interior. Quase tudo em ordem.
A mulher lhe fizera companhia por incontáveis anos. Quis a sorte que não tivessem filhos e morassem sozinhos naqueles ermos, enfrentando a dura vida de igual para igual. Inegavelmente se amavam. O tempo passara, a paixão amainara, mas o amor se fortalecera. A propriedade que herdara do pai, embora pequena em dimensão, era produtiva e lhe permitia levar uma vida de razoável conforto. Plantava para consumo próprio. A parceira se ocupava da casa, jardim, horta e criação. Ele passava o dia na lida com o gado e com a manutenção da propriedade. À noite, o merecido e necessário descanso entre alvos lençóis e o natural perfume da companheira.
À exemplo do que sempre acontece, junto com a nefasta passagem do tempo, a sina maleva acaba mostrando as garras. O médico com consultório na cidade foi frio e enfático: “A senhora tem poucos meses de vida e a doença é irreversível. Vou lhe receitar alguns remédios para amenizar a dor que em um crescendo vai se tornar insuportável. Nada mais neste estágio a medicina pode fazer”.
A alegria trocada pela dor; o riso pelo pranto; a paz pelo terror. Não tardou o dramático apelo: “Faça alguma coisa, meu bem! Não me abandone à minha triste sorte. Não terei forças para suportar a dor”.
O infortúnio, como se possível, havia os aproximado ainda mais. Consultou astros e estrelas, falou à lua sobre seu desespero, buscou no céu e na terra uma resposta e pensou haver encontrado no céu sanguinolento daquele espetacular anoitecer a resposta a suas dúvidas. Lembrou do surrado e solitário livro sempre presente em sua prateleira: Poemas de Bandeira; lindos e fartos de palavras que espicaçavam sua curiosidade para permitir o pleno entendimento dos versos.

Consoada
Quando a indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável)
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta.
Com cada coisa em seu lugar.

Voltou seu olhar ao interno de seu galpão pessoal. Repassou um a um seus sentimentos destruídos, seu total desencanto, mas não encontrou sequer sinal de qualquer arrependimento. Agora era aguardar. A vida, no seu leva e traz, que se encarregue de escrever este final. O destino é um deus impiedoso. Aconteça o que tiver que acontecer.
Chegou a chaleira para junto do fogo para reaquecer a água do chimarrão e aproximou o espeto com as sobras do assado da véspera pensando em um naco da costela. Instintivamente levou a mão à cintura para pegar a sua inseparável lâmina. Lembrou com pesar onde a deixara. A mulher tanto rogou e ele tanto padeceu em atender seu pedido que não lhe sobrou coragem para reaver a faca, frio atalho entre ela e a indesejada.

 

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