O Estripador

MARIO ROBERTO DA SILVA ULBRICH

O Estripador
Num repente, se fez ouvir o som de passos na calçada, imersa no breu da noite. A tênue luz da lua iluminando a viela, revelou as figuras encapuzadas de um casal caminhando lado a lado, em silêncio. Andavam com todo cuidado e atenção na busca do hotelzinho de baixa categoria e má reputação.
Nervos tensionados e o peso do medo nos corações. Uma sequência de crimes ocorridos naquele bairro portuário, frequentado por prostitutas, gigolôs, traficantes e todos os tipos de drogados. Um significativo número de mortes havia instalado um clima de apreensão notadamente entre as mulheres que se aventuravam solitárias. Os corpos das vítimas eram encontrados retalhados, marcados pela violência e desmedida fúria. A polícia sem quaisquer pistas sobre o autor, tateava às cegas, em investigações malsucedidas.
Chegando na recepção do hotel o vulto masculino se adiantou, depositou sobre o balcão o valor da locação de um quarto conforme indicado na tabela de preços e estendeu a mão para apanhar a chave entregue pelo porteiro. Indicou para a companheira a escada e subiu após ela em direção ao encardido corredor do piso superior. Parou em frente à uma porta, abriu-a e entrou no aposento.
Após se fitarem por um momento e sem quaisquer preliminares, retiraram em silêncio seus abrigos e capuzes e na sequência as demais peças de roupas. Dissimulada, sem ser observada pelo parceiro, por precaução a mulher escondeu uma faca sob o travesseiro. Considerou que um tanto de prudência não seria uma demasia.
O homem se dirigiu ao banheiro, deixando a porta entreaberta. Ela ainda preocupada procedeu a uma rápida revista nas vestes do companheiro e se horrorizou ao encontrar em um dos seus bolsos uma reluzente navalha.
Retornando ao quarto, ele apanhou um objeto em suas roupas, o mantendo escondido em uma das mãos e deitou-se ao seu lado. Naquele momento ela ganhou a certeza de que sua vida corria sério risco. Tomando a frente das ações, ela agarrou a lâmina escondida sob o travesseiro e abraçou o homem de modo a puxá-lo para perto de si. De uma maneira um tanto rude ele a repudiou. Ela julgou que era chegado o momento de agir; qualquer indecisão poderia ser fatal. Chegando novamente seu corpo para junto do dele, de forma determinada enterrou a faca em sua barriga.
Gritando de dor ele ainda reuniu forças para tentar revidar a agressão sofrida, sendo contido em seu intento por outros tantos golpes por ela desferidos. Naquele momento ela imaginou ter posto a salvo sua própria vida. Não havia espaço para vacilos. Desconhecido, o cliente desde o primeiro momento não lhe havia inspirado confiança, mas o preço combinado entre ambos não constituía quantia desprezível. A navalha escondida em sua mão, a rudeza segundo a qual repeliu seu abraço, foram no seu entendimento gestos de agressão. Agora necessitava tratar de sair do hotel o mais rapidamente possível, sem despertar a atenção do sonolento porteiro.
Ela não havia visto o vulto que os seguia de longe na calçada oposta, quando da vinda para o motel. Nada ouvira, quando já ocupando o quarto, com o acompanhante encerrado no banheiro, a porta ser cautelosamente aberta e uma outra pessoa, escondida pela penumbra do quarto, ingressar em seu interior.
Não percebeu a aproximação desta sombra de sua cama enquanto desferia os golpes de faca no seu pretenso cliente. Somente quando, já tarde para qualquer reação, notou a presença deste alguém.
Viu o seu corpo jogando-se sobre o dela a subjugando e sentiu uma fria lâmina de aço lhe rasgar as carnes. Seu grito de dor e pavor foi abafado pela mão que lhe tapou a boca e não lhe permitiu respirar. Por um breve instante lhe passou como um flash pelo seu pensamento a possibilidade de que o homem por ela esfaqueado se dera conta da presença de mais alguém no quarto; apanhara sua navalha e a mantivera consigo na cama. A empurrara fugindo do seu abraço, de modo a ficar livre para enfrentar o invasor. Entendeu seu erro e que ele lhe custaria a vida.
Os jornais estamparam no dia seguinte a notícia de uma possível briga entre uma prostituta e seu cliente, que havia culminado com a morte dos dois. A polícia se manteve incrédula quanto a versão de que o modo de proceder era igual ao do estripador. A existência de duas vítimas intrigava aos policiais.
Ninguém testemunhou a cautelosa figura de um velho policial aposentado, se evadindo do hotel. Ele havia prometido a si próprio que um dia daria um basta à sequência de crimes que vinham ocorrendo, sem que a polícia identificasse o autor. Há muito tempo ao abrigo das noites, perambulava pelas vielas da zona portuária em uma ronda solitária, tentando flagrar o estripador em atividade e fazer justiça com as próprias mãos. Sabia em pormenores do modo de atuar do assassino. Os locais onde os crimes eram realizados. O perfil das vítimas.
Após a ocorrência, não voltaram a se repetir os ataques. A imprensa interpretou este fato como sendo fruto da ação ostensiva da polícia, o que deveria ter afugentado ao homicida. Por medo ou precaução continuaram desertas as ruas do bairro à noite. Afirmam aqueles poucos que se aventuram, que na escuridão provocada pelos beirais dos prédios e nas soleiras das portas, se vislumbra algumas vezes um vulto de aspecto ameaçador à espreita.
O velho policial continua realizando sua vigília. Sabe que movidos pela maldade pura e simples ou pela busca de notoriedade, sempre haverá um potencial assassino disposto a assumir incógnito as manchetes dos jornais. Não deixa de sorrir no entanto do segredo que somente ele tem conhecimento. O famigerado estripador morto no motel era na verdade uma mulher.

 

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