O Presente

MARIO ROBERTO DA SILVA ULBRICH

O Presente
Mais um ano passou. Voltei a lembrar de quando nos conhecemos. Havia um clima de romance no ar. A natureza mágica, se exibia num espetáculo de sons e cores; a vida se mostrava em toda sua formosura. Nossos olhares fixados um no outro.
Desde então um feliz conviver; uma paixão incontida, um amor desenfreado. Nossas vidas unidas para sempre, fundidas em uma só.
Na primeira vez que festejamos nossa união, demorei-me à procura de um presente que representasse todo o meu amor. Lembro que comprei um vestido que havia chamado a atenção dela, exposto em uma modesta vitrine de loja de bairro.
– Olha meu amor, que lindo este vestido; acho que ficaria bem em mim! Era simples, bonito e sobretudo de baixo custo, bem a seu gosto.
A cada ano, sempre crescente a dificuldade na procura por um presente de seu agrado, que atendesse suas exigências. Eu buscava encontrar algo que representasse a sinceridade e intensidade de nosso incomum amor. Com muito trabalho, procura criteriosa e principalmente com o pensamento voltado em lhe fazer feliz, procurei sempre com maior afinco um mimo adequado para lhe dar nas datas de celebração de nosso encontro. Acreditei ter atingido na maioria das vezes meu objetivo, traduzido na alegria demonstrada ao receber meus presentes.
Este ano, mais do que nos anteriores, estou me sentindo extremamente desafiado na minha empreitada. Não sei ainda bem o que sem encontrar, estou a procurar.
Ando preocupado com a indisfarçável tristeza dela. Até então eu não a havia visto chorar. Jamais sentira um vazio em seu peito, um desânimo em seu viver. Gastei dias pensando como a consolar, fazer retornar a sua alegria. Desorientado, não estava enxergando alternativas para uma escolha adequada. Hoje, sem um motivo especial, repentinamente vislumbrei a solução: flores!
Não pude entender por que esta ideia não me ocorreu antes. Agora já consigo antever seu espanto, imaginar sua admiração. Acredito que realmente eu possa reavivar a débil chama que hoje faz morada no seu coração, corar suas faces e mesmo que por breves instantes devolver ao seu rosto seu sorriso divinal.
- Benditas flores!
Quando ela olhar através da janela, embaçada pela umidade e sentir a fria manhã iluminada pelos primeiros raios de sol, a transformação irá acontecer.
Atônita, ela abrirá a porta da casa aquecida pelo calor das brasas crepitando na lareira e sairá com seu espanto, para a rua. Seu rosto irá se iluminar, irão secar as lágrimas que mantem úmidos seus olhos. Ela irá perceber que no jardim, entre as demais plantas queimadas pelo frio, somente a sua roseira preferida estará com seus ramos cobertos de verdes folhas e as flores exibindo exuberantes pétalas de um vermelho carnal. Por um momento, mesmo que breve, ela se sentirá novamente feliz com meu inusitado presente e se alegrará, embora minha irreversível definitiva ausência.

 

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