Cassino

Claudia Paixão Etchepare

Tenho um bom ângulo para observação enquanto tomo a minha bebida no balcão do bar. Ouço o canto do croupier, negro el ocho!, seguido de um animado festejo. Noto que vem de uma das mesas próximas a mim.

Um homem recolhe, com braços em arco, uma quantidade avantajada de fichas sobre a mesa. Vejo-o se locupletar com a sorte: trinta e cinco fichas tocaram-lhe como prêmio. Deixa uma de gorjeta para o croupier. Uma rodada passa-se sem que ele mova um só músculo, perfilado à mesa, a mão levemente trêmula sobre as fichas. Suas feições são surradas, assim como sua roupa.

Acordes de música ambiental infiltram-se entre minhas reflexões enquanto sorvo um gole áspero do meu whisky.
Observo os tipos variados que frequentam o cassino e fico pensando se Deus não tem algum tipo de ingerência nos jogos de azar. As superstições entre os apostadores na roleta são as mais variadas. Um olhar acurado revela o susto do senhor ao conseguir salvar uma ficha que caía ao chão - um mau presságio para o jogador. Um homem alto e magro, com feições asiáticas, rodopia em torno do eixo de si mesmo entre uma e outra jogada e, apostas encerradas, uma senhora octogenária (ou seria nonagenária?) move os lábios minimamente em uma reza de olhos entreabertos. A moça elegante, destoando em muitas décadas da média de idade dos frequentadores, beija algo que agarra enclausurado em seu punho. Há os que não aguentam a pressão e saem do jogo estrategicamente por uma ou mais rodadas.

Outra rodada se vai e ele mantem-se imóvel. Maxilares apertados. E mais outra. Gotículas de suor cintilam no alto de sua testa. Na próxima rodada, ele empilha com vagar todas suas fichas, arrasta o monte com cuidado e deposita-o em um número pleno. A roleta gira, gira, gira - posso ouvir o repicar da bola - e pousa em uma das casas. Negro el ocho! - canta o croupier.

Um ciclo de oohhs e aahhhs varre o recinto. Curiosos aproximam-se. Quais são as chances do número se repetir entre rodadas tão próximas? E do mesmo apostador ganhar? Desta vez a bolada foi grande.

Sempre pensei que apostar fosse um ato solitário, um momento de isolamento compulsório onde cada indivíduo confronta a si mesmo, testa seus limites. Existe pouca ou, talvez, nenhuma cumplicidade entre os jogadores que compartilham a mesa, cada um encontra-se ensimesmado no seu universo, em seu embate particular.

Neste dia, no entanto, dou-me conta que entre os apostadores há um mundo paralelo. Entre eles há uma população de anjos que se diverte competindo entre si, cada um disputando o momento certo para mover a bolinha um número abaixo com um leve sopro, ou dois acima com um sopro mais forte, ou ainda encostar a mão translúcida na roleta criando atrito para definir onde a bola vai parar. Será que os anjos também tem ingerência sobre a mão do croupier ao jogar a bola? Ou será que eles cochicham palpites ao ouvido do apostador?

Seja como for, ah como eles se divertem à custa dos humanos! Cada componente da mesa traz uma plêiade particular de anjos que se implicam e medem força, animados por terem sido liberados pelo plano superior para uma noite de distração.

Aproximo-me da roleta. Vejo uma estranha luminosidade reluzir sobre a bolinha ao pousar lentamente na próxima casa. Empino o copo buscando as últimas gotas de bebida, diluídas no gelo derretido. Hora de ir embora. Troco as fichas, fruto dos meus reduzidos ganhos da fezinha da noite.

Antes de dormir, ponho-me de joelhos ao lado da cama, como fazíamos quando criança. Faço uma reza caprichada. Afinal, tenho que levantar o moral do meu time. Vamos jogar de novo amanhã.

 

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