New York

Claudia Paixão Etchepare

Beatriz e Helena foram à NY fazer umas compras.

- Não são lindas? E o preço! Vou voltar lá e comprar mais duas.
- Calma, tu és muito exagerada. Nem fomos ao outlet ainda.
- Exagerada, eu?

Naquela noite o destino escolhido foi o East Village, um bairro boêmio com pequenos bistrôs e pubs aconchegantes. Sob as aureolas amareladas dos antigos postes de luz, Beatriz observava tudo. As portas dos bares abriam-se exalando densos vapores e o som de burburinho vazava de seus interiores. Pareciam tocas secretas convidando ao ilícito. Por que não haviam conhecido este bairro antes? Ao se depararem com o frio lancinante da rua, os habitues enroscavam cachecóis em seus pescoços, cobrindo parte do rosto, deixando somente os olhos expostos.

Beatriz é pessoa de curiosidade cirúrgica. Acompanha o arco desenhado pela chave em suspensão arremessada pelo valet para o cliente. Um homem com pele cor de oliva pega-a no ar, destranca a trava do carro esportivo e sai cantando pneus. Um carro elegante acerca-se da esquina vagarosamente. O casal que desembarca captura os grandes olhos cor de mel de Beatriz.

Helena chega esbaforida, vinda do pequeno café onde comprou um chiclete só para usufruir de minutos do aquecimento e usar o banheiro.

- Onde vamos?

O plano é comer algo em um dos bistrôs atendidos pela família, preferencialmente entre peças inteiras de presunto penduradas e caixas de espumante empilhadas no chão. Precisavam descansar da maratona de compras e planejar a estratégia de mais compras no dia posterior.
Beatriz ainda tem sua atenção voltada ao casal. Ambos são esguios e estão elegantemente vestidos. Espera, esses dois não me são estranhos, pensa. Vira para Helena e diz:

-Olha aquele casal ali. Vê se tu os reconhece.

Helena aperta os olhos, franze a testa e diz: ela não é a tua prima que mora no Canadá?

- É parecida, mas não é minha prima.

O casal entra em um restaurante no ângulo transversal da esquina. Um prédio clássico, desses que aparecem em filmes ambientados em Nova York, um tapete vermelho cobrindo os degraus de acesso. As portas de vaivém são abertas por um senhor uniformizado revelando o interior efervescente. Neste momento seus olhares se cruzam e uma faísca reluz antes de dizerem, quase simultaneamente:

– É ai que vamos jantar!

Se conhecem desde os tempos de escola. Entraram e viram o casal acomodado em um canto discreto. Mesmo sem reserva, hábeis usuárias do jeitinho brasileiro, conseguiram uma mesa a uma distância segura para bisbilhotar. Ao escanear o restaurante com um giro amplo da cabeça, souberam que definitivamente estavam em um local de muitos cifrões acima do planejado.

Intercalando golpes de olhares entre o menu e a mesa do casal, encontravam-se cada vez mais intrigadas a respeito da identidade dos dois. O pedido do prato sugestão do chef foi feito rapidamente e voltaram ao trabalho investigativo. Não demorou muito para Beatriz fazer um gesto de eureca e dizer entre dentes: é o George Clooney e sua esposa. Soltaram um som de excitação que preencheu alguns metros do entorno, atraindo olhares.

George Clooney em carne e osso. Imagina. Pediram vinho. Bebericavam um pouco daqui, observavam outro pouco dali.

- Olha só o bracelete que ela está usando, deve ter uns 15 centímetros de largura. Será que o grisalho do cabelo dele é natural? Viste o sapato dela?
- Como é que tu estás enxergando o pé dela?
- Estou vendo a pontinha, debaixo da mesa, no canto esquerdo.
- Ah, é... Olha, chegou o pedido. Acho que vou pedir um prato a mais, as porções são tão pequenas.
- Não.
- Então vou pedir mais vinho. Waiter!

Alguns cálices adiante, e sentiram-se plenamente inseridas no contexto. Guardanapos de tecido branco engomado, serviço de primeira linha, iguarias e sobremesa dos deuses devidamente degustadas. Quando se aprumavam para ir embora, Helena resolveu tirar uma selfie para tentar pegar a imagem do casal ao fundo. Precisava de uma prova para mostrar aos amigos. Beatriz não gostou da ideia, deixando Helena contrariada.

Eis que, vinda da mesa ao lado, uma voz em português disse: eu tiro a foto para vocês. Eu sei como é essa coisa de tietagem. Eu tiro de vocês as duas e enquadro o casal ao fundo. Elas mal podiam crer no que viam. Do alto de seus quase dois metros de altura, Giba, o ex-jogador de vôlei da seleção brasileira, estendia a mão para pegar o celular. A foto foi feita em silêncio, uma única palavra balbuciada: obrigada. Dirigiram-se à porta de saída ao mesmo tempo e trocaram algumas palavras com ele sobre o frio intenso e o restaurante. Giba, então, tomou a dianteira e, pressionando o puxador de bronze polido com a mão firme, abriu passagem para elas saírem.

Uma lufada de frio congelante e ambas enroscaram seus cachecóis deixando apenas os olhos à vista.

Acordaram bem mais tarde na manhã seguinte, tomaram um longo café da manhã, e resolveram antecipar o voo de volta. Por sorte, havia dois lugares disponíveis para aquela noite. A viagem foi abreviada em 2 dias.

O marido de Beatriz as esperava no aeroporto com a ironia pronta:

- Muitas compras? Deixaram alguma coisa no estoque para os outros brasileiros?

- Compras? Que compras? - disseram ao mesmo tempo.

 

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