Ambrosia

Claudia Paixão Etchepare

Queria muito provar a ambrosia da avó. Disseram que ela fazia a melhor ambrosia da região e não bastasse isso, ela poderia até presenteá-la com um pote para levar para casa.
Só que antes ela tinha que passar pelo crivo da senhora. No interior tem destas coisas. A avó sabatinava, vasculhava o passado, investigando até duas gerações ascendentes, sabe-se lá se o avô da moça não teria esqueletos no armário? A vida pregressa da pretendente era escrutinada como se procura ouro no garimpo. A moça estaria à altura do neto?

O quitute é preparado na família pela vó há 65 anos, sendo a única detentora da receita original.

Fazia seis meses que namorava Almeida e ouvira falar, à boca pequena, que era um tempo curto para ser convidada a provar a ambrosia. No caso da moça anterior, que tinha sido reprovada, sua visita não aconteceu sem antes o namoro completar um ano.
Vestiu-se de maneira discreta e demorou-se por meia hora em frente a penteadeira escolhendo a maquiagem correta. A correta era a do tipo meia de náilon, só de perto se consegue notar. Não havia muito a se preocupar - pensou e balançou a cabeça - a velha estava no papo, a velha, a ambrosia e tudo o mais. Foi então que um pensamento a atravessou como uma lança: Eu detesto ambrosia. Uma mistura horrenda de gema de ovo com açúcar. Dizem que surgiu nos conventos, feita pelas freiras que, com o tempo, acrescentaram canela e cravo, ingredientes malcheirosos e nocivos ao paladar. Para mim, esta alquimia mais parece coisa do diabo.

Mas estava disposta ao sacrifício se lhe valesse uma caminhada de alguns metros ao altar e uma aliança no dedo. Se ambrosia era um quitute bem-quisto na família, ela passaria a adorá-la. Deus haveria de lhe ajudar. Apressou-se em concluir a produção com um sapato de salto médio e bico arredondado, do tipo encontrado nos pés de senhoras de canela grossa e buço espesso.

Entrou no carro e sentou-se ao lado de Almeida. Sorriu para ele, cruzou as pernas e observou a bruma que pairava a meio metro do chão. O carro deslizou produzindo o atrito dos pneus no paralelepípedo ainda úmido da chuva e o som de splash, splash, splash repetia-se ao passar nas poças d’água. Almeida vestia um terno novo que se parecia com todos outros que usava. Ele começou a discorrer sobre recomendações falando com a entonação de um padre da igreja a dispensar conselhos mornos para casais. Tinha controle total sobre a próxima frase, e a próxima, e a próxima. Movia os lábios como se estivesse constantemente com a boca cheia de ambrosia, uma camada espessa entre a língua e o céu da boca, sufocando o som expelido pela boca.

Percursos de carro até o interior são pródigos em minutos. O espaço dentro do carro, exíguo. Os quilômetros na estrada eram engolidos compulsivamente, cada um trazendo uma carga extra de peso ao carro. Olhou para fora buscando amplitude. Tinha lido que ambrosia era considerada o manjar dos deuses do Olimpo. Seu poder era tanto que se um mortal a degustasse, ganharia a imortalidade. Será que teria que aprender a receita da ambrosia e fazê-la em casa? Não, a avozinha haveria de viver muitos anos ainda, quem sabe se tornar imortal depois de tanta ambrosia, e enviar para ele regularmente potes grandes e bem acondicionados de ambrosia.
Doce que se preste é feito com chocolate, desabafou em um diálogo interno. Deixou a última palavra escorregar pelos seus lábios, murmurada, mas Almeida não ouviu. Belga de preferência, meio - amargo, rico em nutrientes e substancias antioxidantes. Em barras robustas. Em forma de tortas, bombons, trufas, pavês. Este sim é um quitute dos deuses.

O carro arrastava-se pesadamente pelo asfalto, faltavam poucos quilômetros para a chegada. Percebeu que Almeida havia retocado a pintura do cabelo, ela não suportava a ideia de ter alguns fios brancos. Olhou profundamente sua imagem e pensou: Afinal de contas quem é esse homem que ... ?
Não teve tempo de concluir o pensamento. Um telefonema interrompeu o silêncio trazendo triste notícia: a avó havia falecido de mal súbito.

Abriu a bolsa e retirou uma barra de chocolate acondicionada em um papel dourado e marrom. Quebrou um pedaço vultoso, jogou-o na boca e fechou os olhos.

 

voltar para página do autor