Tomando as rédeas

Claudia Paixão Etchepare

Faz aquele friozinho que arrepia a pele e induz à introspecção. A sacada de madeira range suas dores, o sopro da brisa produz som de papel trepidando no meu ouvido. Minha cadeira espreguiça seu corpo invertebrado a todo comprimento.
Sorvo aos goles o café forte que preparei com esmero e reflito sobre a situação em que me encontro, inspirando cuidados de toda ordem. A vida tinha imposto seus arbítrios desvairados. Desta vez, havia sido severa. Dois vultos de passarinhos brincalhões voam rasantes por mim e acolhem-se debaixo das telhas da casa.

Tinha alugado uma casa com ampla vista para a lagoa e a distância de uma caminhada vigorosa até o mar. Tudo planejado. Baixa temporada, poucos turistas na região, as condições ideais para levar a cabo o meu propósito. Precisava pensar, mas precisava, também, parar de pensar, zerar a atividade cerebral.

Meu café exala arabescos de fumaça. Eu sei que café quente está na minha lista de proibidos, mas que bem que ele me faz neste momento. Inspeciono a vastidão do oceano. Fagulhas de cinza metálico faíscam sobre sua superfície como olhos de bestas à espreita. Retalhos do horizonte escondem-se atrás de uma fina névoa.

Alguns arabescos adiante e decido que é chegada a hora. Tomo a trilha que conduz ao mar, cruzo a estreita faixa de areia úmida e enrijecida e adentro o oceano sem pensar, sem julgar, com todas as minhas vestes sobre o meu corpo. Recebo o impacto da onda que quebra na altura do meu peito, e mais uma, e mais uma. Deixo-me inundar pela água que faz minha pele eriçar-se como penas de um pássaro. Ela percorre todos os cantos de meu corpo e convido-a a entrar.

Convido-a a desobstruir vielas entupidas, banhar células enfermas, desencardir camadas. Entrego-me a ela por infinitos instantes. Então, com amplo movimento descendente dos braços, impulsiono-me à superfície e inalo o ar com força. Observo a amplitude em meu entorno. Encontro nos morros corpulentos que me circundam espaço para colocar em perspectiva os meus sentimentos. Respiro fundo mais uma vez e exalo o urro que há muito se debatia em minhas entranhas. Sinais de vida piscando, energia vital circulando. Sinto pulsar as pontas dos dedos e o topo da cabeça. Sinto acolhimento em cada ser geográfico que me acompanha naquele instante. O recorte do verde contra o céu, a linha costeira em formato de meia lua, a areia filtrando a água em um vai e vem sem fim.

Observo-os longamente e concluo: a natureza é a sentinela da sanidade mental. Pés firmes plantados no chão. Como é bom tomar as rédeas do meu ser.

 

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