O RESGATE

Claudia Paixão Etchepare


A casa no interior parecia enorme na perspectiva de minha frágil figura. Não tinha mais do que seis anos de idade quando mudamos para a capital. A peça dos fundos, adjacente à casa, era o meu refúgio para brincar de bonecas e conversar com os meus fantasminhas.

O teto de zinco rugiu como uma fera acuada quando a tromba d’água caiu e o gato Twist voou como um foguete para dentro do quartinho. Sem perder a soberba, acomodou-se ao meu lado com um breve e suave roçar de cabeça. Minha boneca, apertada contra o peito. Perfilados em estado de suspensão, nossos três coraçõezinhos bateram sincronizados. Uma eternidade passou-se no meu pueril entender de tempo. No interior, a chuva galopa. O martelar e tintilar de seus pingos propagam-se na amplitude dos espaços e a sensação de fim de mundo é quase real. Hoje, a memória deste momento me visita com a brevidade do risco desenhado no céu por uma estrela cadente.

Lufadas de ar fresco espremiam-se pelas frestas. O aroma de mato roçava as barbas olfativas de Twist e suas orelhas giravam em desalinho, como um periscópio a escanear o entorno em busca do inimigo. Na parte posterior do pátio o denso arvoredo agitava-se, e o farfalhar do abacateiro exalou cheiro de fruta madura. Ele abrigava a nossa casa da árvore - uma madeira fixada como um largo assento entre dois galhos – encaixada pelas hábeis mãos do meu pai. Um muro baixo de pedras delimitava o nosso terreno e o dos vizinhos do fundo e sobre ele brincávamos eu e a vizinha da mesma idade.

Eis que os quero-queros Tico e Tinoco silenciaram-se e a natureza freou o seu labor por uns instantes.

Foi quando um borbulhar de abandono acercou meu peito que minha mãe irrompeu porta adentro e nos resgatou do exílio. - Mães sempre salvam a gente!, pensei. Carreguei o Twist em um abraço desengonçado, pernas traseiras balançando em “v”, e a boneca arrastada pelos cabelos.

Fim da aventura. Começo de uma deliciosa lembrança.

 

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