Réveillon 2019

Stela Rates

Réveillon 2019

A mãe e eu fizemos ambrosia e pão sovado. Ela, a ambrosia. Eu, o pão. Meu marido trouxe do supermercado espumantes e cerejas. Minha filha, cabelos de Iemanjá, mulher-menina, cozinhou uma lentilha sem linguiças, porque linguiças esquecemos de comprar. Ao anoitecer, já tínhamos fome e o cachorro, medo. O eco dos ensaios do foguetório nos alcançava no pequeno apartamento a cem metros do mar, e o cachorro se metia embaixo da cama do quarto de casal, o focinho entre as patas. Tínhamos fome, e a virada ainda demoraria.

Eu me sentia triste, tentei explicar. Não era preciso. Abandonamos a hora e abrimos um espumante, sem estouro, nem brinde. Sentamos à mesa nua (toalha não havia) e comemos as cerejas e o pão, besuntado de manteiga. A lentilha e a ambrosia esperavam o seu momento.

A mãe disse que não se pode sofrer a dor dos outros. A filha esquadrinhou o YouTube, me chamou a dançar.

Bete balança, meu amor, me avise quando for a hora.
Me avise quando for embora.

Um pouco antes da meia-noite, descemos até a praia. A mulher-menina levava uma garrafa de espumante e nós, os velhos ou quase, as cadeiras de armar. Cada um, sua taça flut. Antes da descida, uma colherada de lentilhas. O cachorro permaneceu entrincheirado sob a cama.

Na areia, uma multidão. Os corpos, igualados na quase nudez e suor do dia, na noite de lua minguante, vestidos de branco, recendiam perfume. Rendas e brilhos marcavam cinturas, peitos e nádegas, que aqui e acolá se agitavam ao som de funks. Nós, shorts, bermuda estampada, camisetas, casaquinho preto e desejo de silêncio.

Pipocaram os primeiros fogos. Um pai armou uma girândola a nossa frente, e o filho adolescente acendia os pavios. Temi por suas mãos. Minha menina foi ao mar, cabelos e casaquinho mimetizados na penumbra. Não era dela - nem ainda hora de - pular sete ondinhas. Intuí que evitava os fogos e, se pudesse, fugiria do ano.

- Eu só queria fumar, mãe - disse quando eu, assustada por não a distinguir do mar e da escuridão, a busquei num canto tão distante quanto possível da festa, os pés enterrados na areia, salgados.

O relógio no pulso de minha mãe marcou meia-noite, ela avisou. Beijei seu rosto, a boca de meu marido e os cabelos de minha filha. O espumante já estava aberto, completamos as taças e as elevamos acima de nossas cabeças. Ninguém mais. Um grupo atrás contava 5, 4.... Outro, 3,2...O relógio de minha mãe nos antecipou o ano.

Finalmente, explodiram na ilha os fogos, os gritos, as rolhas. O céu se iluminou também no horizonte, onde se fazia notar o continente. Pela primeira vez, não achei bonito. Pensei no cachorro debaixo da cama, na possibilidade de faíscas caírem sobre nós, no dia seguinte. Minha filha se encolheu no chão, tapou os ouvidos com as mãos, afundou o rosto na canga, e eu tentei envolve-la toda com meus abraços, retirar-lhe o medo, como fazia o avô quando ela era criança.

A fumaça se misturou à maresia, o cheiro de pólvora se sobrepôs ao espírito das algas. Aos poucos, vencidas as sete ondinhas, as pessoas abandonaram a orla, embriagadas de espumante e cerveja, quiçá de esperanças. No seu rastro, garrafas, purpurinas e ainda o funk. Ardiam os olhos de meu marido, e ele, que havia passado quieto a noite, sentenciou: é tão primitivo quanto um ritual primitivo.

Permanecemos por um tempo mais, olhando a espuma branca das ondas espaçadas no mar manso, antes de voltar para a ambrosia e à louça a ser lavada, à vida que devia seguir. Na encosta das dunas, outra família, em volta de uma fogueira, em conversa discreta. Uma parceria, enfim. Imaginei que também eles adivinhavam o conjunto de ilhas rochosas à nossa frente. À luz do dia, nos parecia um gigante de pedra, deitado, indiferente ao nosso tempo. Me perguntei se também eles, iluminados pela fogueira, temiam ver emergir o monstro da lagoa. E me calei, por dentro cantarolando Chico Buarque.

Stela Rates, Porto Alegre, Jan, 2019.

 

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