Branca e pura

Mario Ulbrich

Levanto cedo, dia sim e outro também, sem um sequer de descanso. Desde que perdi um emprego formal, trabalho em vendas; meu negócio é ao ar livre em lugares onde sei que há boas possibilidades de encontrar clientes. Ajo seguindo uma velha e surrada receita na qual a primeira indicação é a de chegar cedo para ocupar o ponto.

Junto a isto o cuidado de conservar os mesmos locais de vendas. Eu conheço meus clientes; eles me conhecem e sabem onde me encontrar. Depositam confiança em mim.

Agrego à receita o cuidado de poder levar minha loja nas costas. Toda a mercadoria pode ser acondicionada em uma única e imensa mochila. Com isto obtenho um ingrediente importante que denomino mobilidade.

Se o mar não está para vendas, busco outra praia. Tenho sempre presente a música “Nos Bailes da Vida” do Milton Nascimento, que diz que – Todo o artista tem que ir onde o povo está. Trocando em miúdos, vou à procura dos meus compradores.

Outro item importante no todo do procedimento é o pregão. Há que anunciar! Quando calado, pouco vendo. Quando anuncio, procedo com todos os necessários cuidados. Em primeiro lugar, não ofereço para quem eu avalio não ser apreciador do produto. Faço o anúncio em voz alta, mas não gritado. Sabem como é, a polícia e a fiscalização estão sempre por perto e meu negócio não emite nota fiscal e muito menos recolhe impostos. Mesmo no meio de tanta roubalheira praticada pelos graúdos, só vai preso quem se vira para sobreviver.

Nesta crise repousa uma tênue vantagem. O povo está se conscientizando de que deve buscar produtos a preços honestos, com qualidade. E este é o principal ingrediente da minha receita de vendas: o meu produto é de qualidade, confiável, sedutor, branco e puro.

Retorno para casa ao final do dia sempre extenuado. As vendas são escassas e ainda tenho de repassar parte significativa dos meus parcos ganhos para o meu fornecedor, que fica com a maior parte. Embora deseje, não posso pensar em buscar novos fornecedores. Ele é o único, dono do pedaço.

A despeito de todos os cuidados, as vendas andam em baixa. Acredito que o motivo para a pouca procura seja devido à crise econômica que o país atravessa. As constantes denúncias de bandalheiras generalizadas, dirigidas a pessoas e instituições criam o vácuo do desencanto.

Desistir de ganhar a vida não posso. Tem o leite das crianças e a minha branquinha, porque não sou de ferro!

Há que se concordar. É dureza ganhar a vida vendendo cocadas.

 

voltar para página do autor